Sobre a vaidade

Você transfere o resultante de suas ações, quando ruins, para os outros se mostrando para fora um ente por quem se deva compadecer eternamente?

Sobre a vaidade
Você transfere o resultante de suas ações, quando ruins, para os outros se mostrando para fora um ente por quem se deva compadecer eternamente? Você cultua a vaidade do que precisa ser sempre socorrido, se esquivando da decisão de tomar as rédeas da sua própria vida? Sim, isto pode ser cultivado como vaidade!


Mas também existem outros tipos de vaidade. Você encontra a vaidade orando, querendo conhecer a bíblia como livro, vaidade de pregar bem, vaidade de trazer pessoas à convicção da fé, vaidade da filantropia, do dar sem receber mas mirando a visibilidade da ação. Vaidade de manter a aparência de perfeito, não admitindo erros quando vêm a cometê-los perante outros. A vaidade é muito mais vasta do que uma roupa que expõe demais ou a maquiagem exagerada no rosto da jovem. Na verdade, se toda vaidade fosse visível seria mais simples de se evitar. O aplauso dos homens é a recompensa da vaidade contra o simples da vida e a recompensa vinda do Pai (que vê em secreto).


No mundo dos selfies o grande sonho é a fama, o reconhecimento. Os smartphones se tornaram os grandes estimuladores do que por fim é um grande vazio, vazio que é a origem etimológica da palavra vaidade. E o mundo se alimenta do que é vão, para depois de um tempo todos virem a ser esquecidos. Mas enquanto isto dura, querem ser celebridades, aqueles que são celebrados na chegada.


A vaidade ocupa todos os lugares, a beleza, a inteligência, a intelectualidade, a cultura e até a tolice. Sim, aquele que é tolo, mas que discerniu o suficiente para saber que ele é tolo, então faz da sua tolice a sua vaidade, o seu marketing pessoal. Cada vez haverá mais o jogo do estímulo à vaidade. É isto que somos, e que só acaba quando este corpo mortal, esta alma que se apega ao pó for subjugada. Esta alma que se apega ao pó (Salmos 119:25), que se apega ao tempo, ao espaço, à forma, à argila, à lama, ao brilho, à juventude, enquanto assim for. Cresçamos para um dia trocar esta vida de pó pela glória da ressurreição.


Quando você enxerga que tudo é vaidade você está a um passo da libertação, sem desconsiderar que a tudo ela está impregnada e que as vezes você leva anos para perceber que uma virtude sua não passava de uma vaidade. Está acontecendo com todos agora, e até o tentar se esquivar de admitir isso é a vaidade mais profunda de se colocar no pedestal do sectarismo dos escolhidos para ensinar e julgar. Basta alguns elogios repetidos e você vai começar a acreditar que você é isto tudo mesmo. E não! Não estamos falando de baixa autoestima, estamos falando do que corrompe além do caráter, a alma mesmo! Você já se assentou, rolou e deitou numa cama de vaidades bondosas, maravilhosas, gloriosas e generosas mas que produz no coração o mesmo supremacismo dos virtuosos? Ou dos esteticamente misericordiosos? Então não esqueça que tudo é vaidade.


Mas como existir sem se relacionar com a vaidade?
Vaidade nenhuma só existiu naquele que sendo Deus, não usurpou ser igual a Deus, antes a si mesmo se humilhou e se fez homem. No universo este é o único. Quanto ao mais a escritura diz "todo homem por mais firme que esteja é pura vaidade" (Salmos 39:5). Diz que todos nós somos como a flor da erva. Mostra o seu esplendor, seca e murcha e desaparece. "Nenhuma vaidade" só existe naquele que nos salvou, para quem olhamos e de quem aprendemos, Cristo Jesus.


Na vida, se aprendemos o evangelho como foi ensinado por Jesus você não se aliena de tudo e todos para fugir das vaidades, desconhecendo a existência, às vezes estando nos lugares, mas recluso para a vida, como um monge. Mas todos os elementos em Jesus estão mesclados: a vida para dentro e os olhos bem abertos para fora. A quietude e o silencio das madrugadas, das manhãs, dos ocasos nas narrativas do evangelho onde ele procura o silêncio. No isolamento, a quietude, e sob o sol, a intensidade dos relacionamentos. Tanto quanto você vê este movimento de Jesus, este respirar e expirar como um processo de vida para dentro e existência para fora, vê-se nEle em todo tempo. Nunca tão isolado e nunca tão exposto, mas sempre neste movimento contínuo. Porém além disso, vê-se as diferenças de ora estar com os pobres, ora com os ricos, ora com os doentes, ora com os sãos segundos seus próprios olhos. Ele vive a realidade de dizer não, e se ver forçado a dizer sim a uma mulher siro-fenícia que tinha a filha endemoniada. Ele fica surpreso com o centurião romano que diz "não precisa ir à minha casa, manda apenas uma palavra daqui que meu servo lá será curado", ao mesmo tempo vinham os fariseus com arapucas mas ele não se dava a conhecer a nenhum deles porque ele bem sabia o que era a natureza humana, de maneira que ele se mantinha em estado de cautela com aquelas pessoas. E olhando para estas dinâmicas dele aonde não existe comparação com nada, somente a sabedoria de se posicionar na vida, que ele manda esta máxima eterna para o mundo caído como o nosso: "Sede simples como as pombas e prudentes como as serpentes". Não existe vaidade no processo. Dela não se necessita para entender a sabedoria. Nós é que comumente, como somos pessoas caídas, frequentemente é através de nossos tropeços, nossos ferimentos, que pela dor vai se aprendendo o significado da tolice da vaidade. Mas não que precise ser assim, nós podemos ir diminuindo os danos a cada passo.


Quanto mais sabedoria eu aprendo e pratico menos chance eu tenho de ser atingido pelo mal que decorre da tolice humana. Porque a maioria dos males que nos atingem decorrem das nossas ações, ou omissões ou adesões tolas e vaidosas. É aí que estas edificações humanas vêm à ruína e dizemos "Deus, porque deixaste?" - Culpa-se a Deus por aquilo que os homens fazem contra os outros e contra si mesmos. É um constante "do que se queixa o homem?" (ref. Lm 3:39).


A quantidade de calamidades que decorrem de coisas naturais são mínimas quando comparadas com o grande mal que atinge o homem todos os dias. Compare quantas pessoas morrem por desastres naturais e quantas estão morrendo em todas as partes por atitudes humanas. Se você parasse a terra hoje, veria que aonde tem dor, quase todos os motivos tem no homem o seu principal causador, fazendo mal ao semelhante ou à criação. Saber disso é entender que a referência para se viver não é o outro no sentido de competição, que gera os ciúmes e invejas, mas melhorar a mim mesmo para o meu bem e para o bem dos que provam dos ramos do meu ser, sim, para o bem do meu próximo também. Isto não se alcança se comparando ou em estado de competição, mas examinando a si mesmos, colhendo o fruto da pacificação.